SAUDADE

SAUDADE

"SAUDADE"

Primeira exposição individual de Pedro Jardim, teve abertura em 26 de novembro de 2014.

"Pedro e Saudade

Na minha curta história de curadoria, nunca tinha visto um artista apanhar tanto da própria exposição, quanto o Pedro Jardim com Saudade. Nem Pulmão foi tão geniosa ao tirar nossa virgindade. 

Como padrinho, tenho que admitir que Saudade foi uma criança problema desde o início. O Pedro decidiu que iria entalhar umas molduras e não se perguntou por que as artes de hoje em dia não costumam vir mais com isso. Como eu considero o cara um MacGyver da produção, pensei "porra, o parente já apareceu com estandarte, oratório, pedra ágata; o que são umas esculturas em resimármore?"

São o terror. Quando você não tem plano b, aí é o pânico rindo da sua cara e olhando pro relógio. Nenhum de nós trabalhou com alternativa pra expo, mas acho que o Pedro foi um passo além na inconsequência e resolveu brincar com técnicas que ele nunca tinha experimentado antes. O tipo de decisão imbecil que revela o quão artista um cara é. As opções eram dar certo ou dar certo, então o Pedro teve que sumir pra fazer Saudade dar certo.

Passei a visitar ele no exílio produtivo, o que me garantiu almoços deliciosos da Fabiana com a pimenta caseira Dayrell, e trocas de ideia realmente profundas sobre o conceito da expo. Hoje sou feliz em dizer que tenho outra perspectiva sobre o fera quietão da barba ruiva. 

A mitologia de Saudade é uma das coisas mais bonitas com que eu já tive contato. É estudo sério, é autoanálise, confissão de vulnerabilidade, romantismo com elegância e delicadeza. Li o material de estudo e escrevi a minha primeira carta em anos (enviada para o próprio Pedro). Uns questionamentos existenciais que pegaram o espírito desprevenido e me fizeram repensar o tempo de uma maneira até mais radical do que gostaria. 

E isso é só o recheio, aquilo que eu te conto depois de umas boas Jeffreys. Visualmente, Saudade é bruxaria purinha, um caldeirão de escolas artísticas temperadas na pimenta caseira viking. Surrealismo de vanguarda com acabamento de escultura clássica em composição de pegada nouveau. Consagrada no perrengue. Sobre parede com intervenção. Pois é.

Eu acabei de ver pronto e você não tá entendendo. 

Espero te ver amanhã, pra noite ficar bonita, até porque é a última expo de 2014 na Galeria Jeffrey e o clima vai estar naturalmente saudosista (pqp até nisso o acaso fortalece). O Pedro merece, pelo sangue e suor que ele deixou nessa expo, e o Novecinco também, pelo mesmo motivo, por tudo o que construímos nesse ano, usando apenas trabalho sério.

Depois vai bater saudade desse tempo, mas deixa vir, que a gente tira de letra.

H.I"